“Senhor Hu Lai, no futebol contemporâneo, o espaço para atacantes como o senhor, que apenas sabem marcar gols, está cada vez mais restrito... Ainda assim, o senhor conquistou feitos deslumbrantes. Poderia nos revelar o segredo do seu sucesso?” Numa tarde de inverno, Hu Lai exibia perante jornalistas de todo o mundo a mais alta honraria que acabara de receber, quando lhe foi dirigida essa pergunta. Diante dos olhares atentos dos repórteres, seus pensamentos, porém, regressaram àquela tarde de seus tempos de colégio, quando permanecia solitário à beira do campo, observando os colegas jogarem. Não lhe permitiam participar, julgando-o um estorvo. Recordou-se também das palavras severas do treinador, com o rosto fechado: “Hu Lai, se não te empenhares dez vezes mais que os outros, teu talento não passará de uma pedra inútil.” E de uma voz desdenhosa: “O futebol moderno exige cada vez mais do centroavante; é preciso ser completo. De que adianta saber apenas finalizar?” Por fim, suas lembranças detiveram-se naquele instante em que, sob um crepúsculo já insinuado no céu oriental, no centro de um terreno abandonado tomado pelo mato, uma jovem lhe falou com extrema seriedade: “Hu Lai, você tem talento, e é um talento extraordinário! Porque você sabe onde está o gol!” Hu Lai fitou os olhos da jovem e, neles, viu refletido o pôr do sol às suas costas. Os raios iluminavam-lhe as pupilas, ondulavam, ardiam, condensando-se em um halo de luz, como se quisessem envolver e derreter sua própria alma naquela claridade. Recobrando-se dessas reminiscências, Hu Lai retornou ao calor daquela tarde invernal. Diante dos jornalistas, que aguardavam ansiosos, ele sorriu levemente e respondeu: “Porque eu sei—o gol está exatamente ali.”
Algumas garotas entraram pela porta e, assim que adentraram a sala de aula, exclamaram em alta voz, todas voltadas para a mesma direção:
— Luo Kai, Luo Kai, temos boas notícias! Quer ouvir?
No campo de visão delas, um rapaz, que conversava com outros, virou-se. Era alto, de porte altivo, pele levemente morena, cabelos nas têmporas cortados bem curtos, transmitindo um ar de vigor e disposição. Mas o que mais se destacava eram seus olhos—grandes de modo incomum entre rapazes, brilhantes e vivos, de tal maneira que, ao olhar para alguém, parecia dialogar apenas com o olhar.
As garotas, ao depararem-se com aquele olhar, ficaram um pouco aturdidas, esquecendo-se do que iam dizer.
— Que boa notícia é essa? — perguntou, impaciente, um dos rapazes ao lado de Luo Kai, vendo que as meninas se calaram.
— Isso, digam logo! — instigou outro.
Só então as garotas voltaram a si, apressando-se em anunciar:
— O time de futebol da escola vai recrutar novos jogadores!
— Vi o cartaz afixado no quadro de avisos!
— Diz que o recrutamento oficial será daqui a um mês...
Os rapazes acenaram displicentemente:
— Ora, achávamos que era algo sério... Já sabíamos disso há muito tempo!
— Ah, já sabiam? — As meninas, ansiosas para dar a notícia, não esconderam a decepção.
— Ora, sobre futebol, nós nos importamos mais do que vocês! — respondeu um dos rapazes.
Luo Kai, que até então não dissera nada, também assentiu para as meninas:
— Pois é, eles já me contaram. Estávamos justamente falando sobre isso.